Muita gente me conhece pelos mandatos. Mas a parte da minha vida que mais me formou não foi em Brasília.
Foi em Goiás, em 1983, sentado atrás de uma máquina de escrever.

O que faz um escrivão
Escrivão de polícia é quem registra. Quem ouve a pessoa que chega desesperada, transforma aquilo em texto e monta o inquérito que vai — ou não — virar processo.
É um cargo que quase ninguém conhece e que decide muita coisa. Se o registro é malfeito, a investigação nasce torta. Se a pessoa é mal atendida, ela não volta.
Eu fiquei nessa função de 1983 a 1987. Foi ali que eu vi o Brasil sem maquiagem.

O que a delegacia ensina
Ninguém chega numa delegacia num dia bom.
Chega o pai que perdeu o filho. A mulher que apanhou e demorou anos para conseguir falar. O comerciante que perdeu o que levou a vida inteira para juntar. O adolescente que já entrou preso, e que aos doze anos tinha saído da escola sem que ninguém notasse.
Você não sai igual disso. Aprende a ouvir sem julgar rápido, porque quase todo caso é mais complicado do que parece nos primeiros cinco minutos. E aprende que sistema não é abstração — sistema é o que faz ou não faz diferença para aquela pessoa na sua frente.

Depois vieram outras funções
Fui chefe de gabinete na Secretaria de Segurança Pública de Goiás. Fui delegado titular em Aparecida de Goiânia. Estudei direito, fiz especialização em direito administrativo, constitucional, penal e processual penal.
E de 1993 a 2003, presidi a Associação dos Delegados de Polícia do Estado de Goiás. Foi nesse período que eu comecei a entender o outro lado da conta.
Como representante de classe, eu passei a ver os números: quantos delegados existiam para quantos inquéritos, quantas viaturas estavam paradas, quanto atraso tinha a perícia. Descobri que a maior parte do que travava o trabalho não se resolvia dentro da delegacia.
Se resolvia em orçamento, em lei e em decisão política.

Por que eu fui para Brasília
Foi essa conclusão que me tirou de Goiás em 2003.
Não foi vontade de ser político. Eu tinha carreira, tinha estabilidade e tinha um trabalho que eu gostava de fazer. Foi a percepção de que continuar reclamando de dentro não ia mudar o que precisava mudar.
Passei cinco mandatos lá — de 2003 a 2023. E levei junto três coisas que a delegacia me deu e que a faculdade não dá:
Realidade. Eu sei o que é chegar numa ocorrência sem equipe suficiente. Isso me impede de acreditar em solução que só funciona no papel.
Paciência com processo. Inquérito é lento, chato e cheio de detalhe. Quem não aguenta isso não aguenta legislar.
Respeito por quem está na ponta. Eu já fui o sujeito da ponta. Não consigo tratar policial como número de planilha.

O que eu faço hoje
Hoje eu estou de volta ao dia a dia da administração pública, e voltei a rodar Goiás.
Continuo o mesmo sujeito de 1983, com quarenta e poucos anos a mais de estrada. Ainda acho que quase todo problema grave começa muito antes de chegar na delegacia. E ainda acho que dá para fazer diferente.
Escrivão, delegado, presidente de associação, deputado. Em todas essas funções eu fiz basicamente a mesma coisa: ouvir alguém que estava com problema e tentar resolver.
Muda o tamanho da mesa. Não muda o trabalho.
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